Letalidade policial parte de um conjunto de fatores, explica especialista
O Paraná registrou uma morte a cada 302 abordagens policiais em 2025. Foram 150.190 abordagens policiais, que resultaram em 497 mortes.
Foram registrados também 126 feridos e 56.471 prisões em flagrante nessas abordagens.
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Os dados são de um estudo elaborado de forma conjunta no Ministério Público do Paraná (MPPR) pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Eles consideram abordagens da Polícia Civil, da Polícia Militar e da Guarda Municipal em todo o estado. As informações são retiradas de Boletins de Ocorrência (B.O’s), registrados pelos agentes de segurança.
➡️ Entre as atribuições do Ministério Público está o controle externo da atividade policial, o que inclui o acompanhamento dos dados relativos a confrontos e mortes resultantes de ação da polícia.
Em 2024 foram 412 mortos e 109 feridos. Os números de 2025 representam um crescimento de 20,6% no número de mortes e 15,6% de pessoas feridas entre um ano e outro.
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Contexto
Paraná registrou uma morte a cada 302 abordagens policiais em 2025
Reprodução/RPC
O levantamento aponta que, em 2025, em 63,22% dos casos que resultaram em morte ou lesão corporal, a atuação policial teria ocorrido durante um crime em curso, ou seja, quando os agentes de segurança abordaram pessoas que estavam cometendo crimes.
Em 74,10% das ocorrências, a vítima estaria com uma arma de fogo, e em 13,88% das situações, uma arma branca, como facas e outros objetos perfurantes.
Os Boletins de Ocorrência analisados indicam que a principal justificativa apontada pelas forças de segurança no uso de força letal foi legítima defesa, com 99,23% das ocorrências.
Procurada pelo g1, a Secretaria da Segurança Pública do Paraná (Sesp-PR) destacou que o uso de arma de fogo ocorre apenas como último recurso, em situações de agressão injusta e iminente contra policiais e para proteger a população.
A secretaria aponta ainda que o aumento de prisões em flagrante aponta que a polícia está “mais rápida e eficiente, chegando na hora em que o crime está ocorrendo e, com isso, não há como evitar o confronto, a não ser que o criminoso se entregue pacificamente”.
Victor Neiva e Oliveira, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que a letalidade policial parte de um conjunto de fatores. A começar pela dimensão individual, resumida pela tomada de decisão do policial em cada situação.
Há também o conjunto de opções político-institucionais e organizacionais, que envolvem as escolhas de governo e diretrizes de segurança pública, além da forma como esses casos são gerenciados e investigados.
“Essa dimensão está ligada à formação e ao treinamento dos policiais, ao que a gente chama de processo de profissionalização da polícia. Isso envolve não só uma formação em termos de currículo, que avançou muito no Brasil, com uma matriz curricular nacional, mas também formações relacionadas a diferentes temas, técnicas, operacionais, de direitos humanos, em relação a populações mais vulneráveis, entre outras”, explica.
Nesse aspecto, Neiva destaca também que pesa a “formação de currículo oculto”, que acontece no âmbito da cultura organizacional das forças de segurança.
“São como os saberes que são transmitidos, os saberes que não estão formalizados nem em matrizes curriculares, nem em legislações, mas que são próprios, que são constituídos na prática e na rotina operacional e transmitidos pelos próprios policiais em função do tempo, em função da patente ou do grupo que vai se constituindo. Também diz respeito ao incentivo de determinadas condutas”, resume.
A Secretaria de Segurança Pública afirma que “toda morte decorrente de intervenção policial é apurada com rigor e transparência, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário”.
Localidade e perfil das vítimas
Curitiba teve 121 ocorrências policiais que acabaram com mortos ou feridos
Divulgação/Governo do Paraná
O Ministério Público fez também o levantamento da distribuição dessas ocorrências. De acordo com o órgão, o desafio passou a ser não apenas o de saber quantas ocorrências aconteceram em cada local, mas entender os padrões, contextos e dinâmicas que estão por trás dos números.
Sete são os municípios que tiveram mais de 10 ocorrências registradas em 2025: Curitiba (121), Londrina (34), Foz do Iguaçu (26), São José dos Pinhais (24), Cambé (15), Ponta Grossa (11) e Colombo (11).
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Victor Neiva destaca que a análise por município deve avançar, para que seja possível localizar onde a letalidade policial se concentra.
“A gente precisa avançar no nível municipal: quais são os batalhões e quais são as delegacias que estão mais envolvidas nesses casos? O papel do Ministério Público nesse ponto é extremamente importante: localizar os pontos mais problemáticos onde se concentra mais a letalidade policial no âmbito dos batalhões e das delegacias, porque aí eles conseguem atacar melhor o problema”, detalha.
Além disso, os dados apontam para um padrão que permite localizar horários e locais em que essas ocorrências, em geral, acontecem. “Tem locais e horários muito específicos de ocorrência desse fenômeno, você tem espaços nos quais ele acontece”, explica Victor.
Isso se reflete também no perfil das vítimas que morreram nas abordagens. Do total, 99% eram homens. Além disso, na distribuição por faixa etária, a maioria tinha entre 18 e 29 anos.
Os dados compilados pelo Ministério Público apontam ainda que 44,3% eram pardos, 37,6% brancos e 6,4% pretos. Em 11,7% dos casos que terminaram em morte, a cor da vítima não consta no Boletim de Ocorrência.
O Ministério Público aponta que as vítimas apresentam um perfil demográfico distinto daquele que predomina na população paranaense. Veja abaixo:
Comparação do perfil das pessoas que morreram em abordagens policiais no PR em 2025
Um longo caminho em busca de soluções
Câmera corporal com a polícia do Paraná
Geraldo Bubniak/AEN
Buscando aumentar a atuação no tema, o Ministério Público do Paraná implementou um canal de comunicação específico entre a instituição e as vítimas ou familiares de vítimas das ocorrências com as forças de segurança.
A ferramenta está disponível nos canais de atendimento do site do Ministério Público e permite ampliar as possibilidades de registro, acompanhamento e qualificação das informações recebidas pelas Promotorias responsáveis pela apuração. O objetivo, conforme o órgão, é “o fortalecimento dos instrumentos de transparência e a resposta adequada às demandas da sociedade”.
O pesquisador Victor Neiva aponta ainda uma série de experiências que se mostraram exitosas para reduzir o número de mortes e lesões em ocorrências policiais. A começar pela ação coordenada entre União, estados e municípios.
“É a governança intersetorial. Você tem ações de inteligência, de prevenção, de proteção, tanto aos policiais quanto aos familiares de vítimas e às vítimas também”, detalha.
Outro ponto apontado pelo pesquisador é o uso de câmeras corporais, que funcionam como um duplo papel: previnem os abusos e as más condutas por parte dos policiais e também protegem os policiais contra as acusações infundadas. Além disso, as imagens funcionam como provas para investigações e eventuais processos judiciais.
No Paraná, o uso das câmeras começou a ser implementado em 2024, com equipamentos distribuídos em oito cidades. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, a Polícia Militar do Paraná tem 300 equipamentos desse tipo em operação. O governo do estado afirma que há um processo para aquisição de outras 300 câmeras em andamento, com investimento de R$ 1 milhão.
Também em 2024, a Secretaria investiu R$ 24,6 milhões na compra de 1.400 armas de choque – equipamentos não letais, também chamados de tasers.
No entanto, Neiva reforça que, sozinhas, câmeras e tasers não são suficientes.
“Precisam estar combinadas com outras ações de reforço aos mecanismos de controle interno e externo. É um problema muito grande quando elas são colocadas como a solução que vai resolver todos os problemas. E ainda é problemática porque elas estão sujeitas às instabilidades ou ao sabor das mudanças administrativas, das opções político-institucionais”, explica.
Em 2025, em 63,22% dos casos que resultaram em morte ou lesão, atuação policial teria ocorrido durante um crime em curso
Polícia Militar
O que dizem as forças de segurança?
Leia a íntegra da nota da Secretaria Pública do Paraná, responsável pela Polícia Civil e Polícia Militar:
A Secretaria da Segurança Pública do Paraná (Sesp) informa que as forças de segurança do Estado seguem protocolos rigorosos de treinamento e uso diferenciado da força, com prioridade à preservação da vida. O uso de arma de fogo ocorre apenas como último recurso, em situações de agressão injusta e iminente contra policiais e para proteger a população. No ano de 2025 foram registradas 490 mortes em confronto com forças policiais no estado do Paraná. Esses são os dados da Sesp e também do Ministério da Justiça.
Além disso, é preciso levar em conta que, em 2025, as polícias do Paraná detiveram 73.194 suspeitos em todo o Estado. O que significa que os óbitos correspondem a pouco mais de 0,6% do total de detenções, evidenciando o caráter excepcional dessas ocorrências diante do volume de abordagens. O próprio estudo do MP mostra que, em 2025, houve 41% a mais de prisões em flagrantes em relação a 2024. Isso significa que a polícia está mais rápida e eficiente, chegando na hora em que o crime está ocorrendo e, com isso, não há como evitar o confronto, a não ser que o criminoso se entregue pacificamente. A Sesp ressalta ainda que toda morte decorrente de intervenção policial é apurada com rigor e transparência, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário. Ao mesmo tempo, vale sempre ressaltar que, em 2025, o Paraná apresentou os menores números de homicídios, roubos e furtos desde o início da série histórica, em 2007, e essa tendência de queda se mantém em 2026.”
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Fonte: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2026/08/06/parana-registrou-uma-morte-a-cada-302-abordagens-policiais-em-2025.ghtml
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